Ao Agora CNN, Sidney Leite , pós-doutor em conflitos do Oriente Médio, falou sobre os novos ataques de Israel contra o Líbano e como isso pode impactar as conversas entre EUA e Irã
Compartilhar matériaIsrael realizou novos ataques no Líbano na manhã deste sábado (20), apesar do cessar-fogo com o Hezbollah que entrou em vigor recentemente. Ao menos 16 pessoas morreram. O Exército do Líbano afirmou que a ofensiva israelense tem como objetivo obstruir os esforços para restaurar a estabilidade no país.
Já o lado israelense declarou que os ataques ocorreram em resposta ao lançamento de mais de 50 projéteis pelo Hezbollah — grupo apoiado pelo Irã — contra forças posicionadas no sul do Líbano. Os combates entre Israel e Hezbollah ameaçam o acordo firmado entre Estados Unidos e Irã, que prevê o fim das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano.
Em entrevista ao Agora CNN deste sábado (20), Sidney Leite, pós-doutor em conflitos do Oriente Médio, analisou os limites desse entendimento: "A fragilidade está no fato deste acordo ser um combinado bilateral entre os Estados Unidos e o Irã. Ele não envolve um outro personagem importante desse conflito: Israel", pontuou o especialista.
Segundo Sidney Leite, Israel não participou das negociações e tampouco será convidado para a assinatura do acordo. "O atual governo israelense, liderado por Benjamin Netanyahu, mantém um projeto político claro de permanência no poder, utilizando o argumento de que o país está em constante ameaça", relembrou Leite.
"Não há intenção do governo Netanyahu de cessar os ataques ao Líbano", afirmou. O especialista ressaltou também que a chamada vitória diplomática do Irã foi justamente ter conseguido incluir o Líbano nas negociações.
Sidney Leite avaliou que as hostilidades contínuas entre Israel e Líbano já comprometeram a relação entre os governos dos Estados Unidos e de Israel. "O vice-presidente americano J.D. Vance demonstrou publicamente sua insatisfação com Israel, argumentando que os Estados Unidos são o único governo que apoia o país e que, portanto, não caberia a Israel entrar em confronto com Washington", relembrou Leite.
Para ele, os Estados Unidos perceberam tardiamente que a incursão no Irã interessava muito mais aos objetivos do governo de Israel do que propriamente aos interesses norte-americanos.
Sidney Leite detalhou os termos do memorando de 14 pontos, descrevendo-o como amplamente favorável ao governo iraniano. Entre os pontos destacados, o especialista mencionou que os mísseis de médio e longo alcance do Irã não foram incluídos no acordo, que o país receberá um fundo de 300 bilhões de dólares para reconstrução e que seus ativos em países aliados dos Estados Unidos serão devolvidos ao governo iraniano.
"Na verdade, este acordo só traz um ponto altamente benéfico para os Estados Unidos: a liberação do Estreito de Hormuz", afirmou. Segundo ele, o episódio representou um "desastre para os interesses estratégicos dos Estados Unidos", enfraquecendo o país não apenas no Oriente Médio, mas no sistema internacional como um todo. "É uma vitória política, diplomática e econômica do Irã. Hoje, o governo iraniano está muito mais forte com sua população em comparação ao começo do conflito."
O especialista ainda apontou dois fatores que levaram os Estados Unidos a aceitar o acordo mediado pelo Qatar e pelo Paquistão. O primeiro, de ordem econômica, foi o impacto do fechamento do Estreito de Hormuz sobre os preços do petróleo, dos combustíveis e da inflação nos Estados Unidos e no Ocidente. O segundo, de ordem política, está relacionado às eleições de meio de mandato americanas.
"Foi uma guerra altamente impopular, só 12% da população americana apoiou este conflito, e o Trump enfrenta forte resistência dentro do seu partido, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado", afirmou Sidney Leite. Segundo ele, o governo Trump tomou decisões sob forte pressão e ainda não está claro se o acordo terá efeito positivo no curtíssimo prazo até as eleições.
Fontes em contato com a CNN Internacional relataram que representantes do governo dos Estados Unidos devem se deslocar à Suíça neste fim de semana para conversas com autoridades iranianas, na tentativa de avançar em direção a um acordo de paz. O encontro que estava previsto para a sexta-feira não ocorreu, e o memorando de entendimento com 14 pontos segue como base das negociações em curso.


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