Era comum ver estudantes entrando e saindo da casa da professora Izildinha, mesmo em seus dias de folga. Incontáveis vezes ela abriu portas para eles tirarem dúvidas ou discutir pesquisas. Em seu currículo constam cerca de 100 orientações. Colaborou da iniciação científica até doutorado. Leia mais (06/20/2026 - 16h00)

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20.jun.2026 às 16h00

Era comum ver estudantes entrando e saindo da casa da professora Izildinha, mesmo em seus dias de folga. Incontáveis vezes ela abriu portas para eles tirarem dúvidas ou discutir pesquisas. Em seu currículo constam cerca de 100 orientações. Colaborou da iniciação científica até doutorado.

"Sempre foi uma pessoa muito competente e comprometida com a formação dos alunos e com a pesquisa que se dedicava. Era exigente e preocupada com a qualidade dos profissionais que estavam sendo formados", diz a engenheira florestal Gracialda Ferreira, 54, ex-aluna e depois colega de colegiado.

Izildinha de Souza Miranda nasceu em Rondonópolis (MT), em 1962. Era a caçula de quatro irmãos que recebiam da mãe, semianalfabeta, incentivo para estudar.

Sua relação com biologia começa ainda na escola, marcada por uma professora. Começou a faculdade na UFU (Universidade Federal de Uberlândia), onde morou. Depois, concluiu na UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso).

Quando engravidou do primeiro filho, pensou em trancar os estudos, mas foi a mãe que não deixou. Disse-lhe que ajudava no que fosse preciso, mas parar não era uma opção.

Especializou-se em plantas e estar na Amazônia passou a ser um plano de vida. Fez mestrado em ecologia e doutorado em botânica, ambos no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia). E teceu uma rede de contatos com pesquisadores do mundo todo.

"Ela conseguia organizar todas as coisas. Fez mestrado e doutorado com duas crianças para criar. Passava dois meses no campo e morria de saudade, mas sempre levou com muita leveza", afirma o filho Yuri Miranda Rebêlo, 36.

Izildinha chegou a ficar um ano como professora da Unir (Universidade Federal de Rondônia), seu primeiro concurso. Depois, passou em outro que achava mais seu perfil, focado em ecologia, na UFRA (Universidade Federal Rural da Amazônia), em 2000.

Foi morar em Belém, onde desenvolveu importantes estudos. Publicou mais de 80 artigos científicos, tornando-se referência em botânica e ecologia. Foi pró-reitora de pesquisa da UFRA por oito anos, contribuindo com cursos de pós-graduação.

Durante décadas, sua rotina foi dormir cedo, acordar ainda na madrugada e já começar a trabalhar.

Dentro e fora da academia, tinha um bom senso de humor. Buscava de coração aberto várias religiões e gostava de festas com amigos, como churrascos em casa.

Uma paixão era viajar. Dizia adorar observar diferentes culturas, talvez mais uma herança da mãe, que lia livros e fotonovelas com paisagens do mundo. Passou os últimos aniversários nos estados de Sergipe e Espírito Santo, completando assim todo o país.

Para a família também era uma incentivadora, presenteava os jovens com livros e ensinava a questionar as coisas para entender melhor. "Ela sempre cultivou na gente a desafiar um pouco, meio o que a ciência faz", diz o filho Matheus Miranda, 42.

Morreu no dia 5 de abril, aos 63 anos, por complicações de um câncer de intestino