Em meio a surpresas e decepções, a Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 1994 trouxe o tetracampeonato da seleção brasileira e representou a consolidação do futebol profissional dos Estados Unidos.

Foi um verão agitado nos Estados Unidos.

Estádios banhados pelo sol, com lotação esgotada, souvenirs chamativos, gols icônicos e jogadores brilhantes.

Os eventos fora do campo reverberavam tão alto quanto os dramas vividos nos gramados. O maior palco do futebol mundial era tratado com o brilho de Hollywood.

Foi naquele verão que o futebol aterrissou de vez nos Estados Unidos, em um verdadeiro touchdown acompanhado pelo glamour de estrelas americanas de todos os gêneros, de Stevie Wonder a Robin Williams, de Oprah Winfrey a Diana Ross.

"Criamos a impressão de que este era um evento único e que todos precisavam se envolver", relembra o ex-presidente da Federação Americana de Futebol (US Soccer), Alan Rothenberg. "A forma como organizamos a Copa do Mundo mudou tudo."

Esta é a história da Copa do Mundo da Fifa de Futebol Masculino de 1994, nos Estados Unidos — um verão futebolístico que acordou um continente, de onde o Brasil voltou com a taça pela quarta vez.

A única liga profissional de futebol dos Estados Unidos havia sido desfeita apenas nove anos antes da Copa. Foi o fim de uma década de glamour, iniciada em 1975, quando a equipe do New York Cosmos tirou da aposentadoria o rei Pelé (1940-2022), pagando o maior salário do mundo na época.

Os craques Franz Beckenbauer (1945-2024), Carlos Alberto Torres (1944-2016) e Johan Neeskens (1951-2024) acompanharam Pelé no Giants Stadium de Nova Jersey, completamente lotado.

Ali, o mascote era o coelho Pernalonga e era possível ver jogadores e presidentes se misturando com astros e estrelas, como Barbra Streisand, Mick Jagger e Muhammad Ali (1942-2016).

George Best (1946-2005), Johan Cruyff (1947-2016), Gerd Müller (1945-2021). Grandes jogadores de futebol atravessaram o Atlântico até o fim desta era dourada, causado pela expansão desmedida, excesso de gastos e diminuição do público, além do fracasso dos Estados Unidos por não ter conseguido promover a Copa de 1986, realizada no México.

Mas aquela fase deixou no país a chama da paixão pelo esporte. E esta chama foi suficiente para convencer a Fifa de que os Estados Unidos ainda eram um campo fértil para fazer crescer a popularidade do futebol.

Foi assim que os Estados Unidos Unidos se tornaram o primeiro país, fora da Europa e da América Latina, a promover o maior torneio futebolístico do mundo.

Mas, para isso, havia uma condição: criar uma nova liga de futebol profissional. O desejo da Fifa era que a Major League Soccer iniciasse em conjunto com a Copa do Mundo.

Rothenberg tinha diversas ideias para americanizar o jogo. Uma delas era permitir que os jogadores dessem voltas em torno das traves, como no hóquei sobre o gelo.

Ele prometeu ao então secretário-geral da Fifa, Sepp Blatter, que lançaria a liga se a Copa fosse bem sucedida.

Os primeiros sinais do brilho que os Estados Unidos queriam trazer para a Copa do Mundo surgiram durante o sorteio dos grupos, realizado no Caesars Palace, em Las Vegas.

Os cantores James Brown (1933-2006) e Smokey Robinson se apresentaram no evento. O comediante Robin Williams (1951-2014) usou uma luva cirúrgica para sortear as equipes e ainda brincou com Blatter na ocasião.

Houve uma semana de shows musicais no icônico Hollywood Bowl, em Los Angeles, que reuniu desde a Orquestra Sinfônica de Moscou até a banda Red Hot Chili Peppers.

Celebridades surgiam em todos os eventos possíveis, como os cantores Stevie Wonder, Enrique Iglesias, Barry Manilow, Liza Minnelli e Bryan Adams. Até os pugilistas Evander Holyfield e Oscar De La Hoya participaram da turnê promocional.

"Não acho que houvesse muito conhecimento ou interesse pela Copa do Mundo nos Estados Unidos", conta Rothenberg à BBC Sport. "O que sabíamos é que os americanos adoram um grande evento. Por isso, reunimos artistas e celebridades."