Continente tem resistência histórica aos biocombustíveis sob argumento de competir com alimentos e causar desmatamento

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19.jun.2026 às 23h00

O Brasil quer construir uma aliança com Argentina e Paraguai para tentar diminuir a histórica resistência da Europa aos biocombustíveis —como o etanol ou SAF (de aviação)— vindos da América Latina.

O movimento acontece em um momento no qual a União Europeia trabalha em duas pautas que podem dificultar a importação desses combustíveis sustentáveis.

Para os países da América Latina, o interesse é expandir as vendas para um grande mercado consumidor e que, nos últimos anos —sobretudo desde as guerras da Ucrânia e no Irã— vem reduzindo o consumo de fósseis.

Jerônimo Goergen, ex-deputado federal e hoje presidente da Aprobio (Associação Brasileira de Biocombustíveis), afirma que ainda é necessário alinhar um discurso, uma vez que Brasil, Paraguai e Argentina usam matérias-primas distintas nas suas respectivas produções.

Se os argentinos baseiam seus combustíveis na soja, o agro brasileiro prefere o milho ou a cana-de-açúcar. "Queremos buscar uma unificação de posição", diz.

"Estamos vivendo um processo de internacionalização do setor. Europa, Japão, Canadá, todos têm potencial de compra e temos que ver de que forma a gente vai entrar nesses mercados. Eles não têm a capacidade produtiva que temos, só o Brasil consegue abastecer o mundo com SAF, biodiesel e etanol", completa.

Por enquanto, os europeus optam pela eletrificação, indústria dominada pela China.

As duas guerras fizeram o preço do petróleo e do gás natural explodir e expuseram a dependência europeia da importação dessas duas fontes vindas de países do Oriente Médio, no primeiro caso, e sobretudo da Rússia, no segundo caso.

Por isso, desde 2022, a União Europeia lança mão de programas para diversificar seus fornecedores de combustíveis e criar alternativas aos fósseis.

A parcela de renováveis dentro do sistema elétrico do bloco econômico, por exemplo, passou de 35% para 48% entre 2020 e 2024. A UE definiu a meta de chegar a 70% de renováveis em sua matriz energética até 2050.

Segundo diplomatas do Brasil e da União Europeia com quem a Folha conversou sob reserva, neste momento não há interesse na importação de biocombustíveis para substituir os fósseis, como gasolina e diesel.

Não à toa o foco da UE na América Latina agora são os minerais críticos e as terras raras, essenciais para a indústria elétrica renovável (baterias ou painéis solares, por exemplo). O grupo já tem protocolos de intenção assinados com Chile e Argentina, e busca agora um com o Brasil, onde miram quatro projetos de mineração para apoiar e possivelmente investir.

Tramita no Parlamento Europeu atualmente uma resolução que faz com que, a partir de 2030, os biocombustíveis de óleo de palma e de soja não sejam considerados para fins de descarbonização —em outras palavras, isso classifica esses produtos como não sustentáveis. O texto deve ser votado até agosto.

A medida não tem efeito específico sobre as importações, mas segundo agentes do setor, se aprovada, deve favorecer ainda mais o setor elétrico em detrimento de alternativas como o etanol e o biodiesel.