Fica no ar uma pergunta incômoda: o que o mágico esporte de onze contra onze perde quando não erra mais?

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A Copa do Mundo de 2026 promete ser a mais tecnológica da história. Com avatares de jogadores, chip na bola e câmeras em árbitros, as decisões em campo ganham precisão inédita. Descubra como essas inovações, da detecção de impedimento à visão imersiva, estão mudando o futebol.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Foi um ritual inédito. Todos os 26 jogadores da seleção brasileira tiveram os corpos escaneados assim que chegaram aos Estados Unidos. Um a um, entre sorrisos e algum espanto, eles entraram em aparelhos semelhantes aos que existem em aeroportos. Ergueram os braços, afastaram as pernas e, em menos de trinta segundos, missão cumprida. Dos pés à cabeça, tiveram anotados 29 pontos do esqueleto, de modo a criar “avatares”, cópias exatas de cada um deles.

O objetivo: facilitar, em tempo real, por meio de dezesseis câmeras eletrônicas instaladas em cada estádio da Copa do Mundo, em território americano, no México e no Canadá, a definição da posição de impedimento, em processo semiautomático. Posto de outro modo: sem que as imagens tenham de passar pelo VAR — instalado em uma central de comando em Dallas —, o árbitro e os auxiliares de linhas têm a resposta em um átimo de tempo, a partir do registro simultâneo, cinquenta vezes por segundo, dos detalhes anatômicos dos atletas. As figurinhas que se veem na televisão são as tais imitações precisas.

No Catar, há quatro anos, as informações eram passadas para a turma do VAR — agora, não, é direto, com o luxo tecnológico dos “avatares” criados por inteligência artificial. O VAR ainda existe, claro, mas tem sido posto em papel secundário, ou quase, porque houve avanços. “A inovação é uma ferramenta de transparência, útil para os juízes e fundamental para a aproximação dos torcedores com as partidas”, diz Yuanqing Yang, CEO da Lenovo, multinacional chinesa encarregada da empreitada.

As reproduções desenhadas por imagens dos 1 248 candidatos a heróis, e alguns vilões, são a porta de entrada de uma interessante característica do torneio, sem precedentes: será a Copa mais tecnológica de todas. Além dos avatares, destaca-se o chip posto dentro da bola oficial, a Trionda, em recurso que facilita a captura do movimento da redonda a todo instante, o exato momento do passe — fundamental para o controle de impedimentos — e, claro, a posição em lances limítrofes, em pênaltis duvidosos ou gols em que a linha é ultrapassada no detalhe. Há também a câmera levada pelos árbitros, em efeito insólito, inaugurada pelo brasileiro Wilton Pereira Sampaio na estreia, a vitória do México contra a África do Sul, por 2 a 0: vê-se o ponto de vista de homens e mulheres do apito, em imersão cinematográfica. A traquitana tinha sido experimentada no Mundial de Clubes no ano passado, mas melhorou, com 50% menos de tremor, graças a um mecanismo de estabilidade de movimentos. Há algum estranhamento, mas é fascinante para o torcedor pular direto do sofá para dentro do campo — e muito bem pensado.

A evolução eletrônica foi sempre um desejo de eventos esportivos televisionados — desde a introdução das cores, em 1970, e do replay, também na Copa vencida por Pelé e cia. Outro salto, ruidoso, foi o estabelecimento do VAR, em 2018, na Rússia. Há, agora, algo incomum. Por décadas, a tecnologia no futebol serviu somente ao telespectador, e que bom ter sido assim. O chip na bola da Copa de 2010 impressionava quem assistia à transmissão, mas servia apenas para saber se a linha de cal tinha sido vencida — dentro de campo, o artilheiro chutava a mesma esfera de sempre. O VAR em 2018 mudou resultados, mas era medida de revisão: parava o relógio, congelava o momento, exigia a consulta da imagem. Em 2022, no Catar, o sistema semiautomático de impedimento produziu gráficos tridimensionais deslumbrantes nas recuperações de imagens — e o assistente continuava levantando a bandeirinha como em 1930, com grandes chances de erro. Em 2026, tudo parece mudar. As inovações já não registram apenas os jogos — estão dentro deles e não deixam muita margem para dúvida. O julgamento humano dá vez ao algoritmo, como em quase tudo na vida. É a precisão elevada ao cubo.

Até mesmo dentro do gramado há consequências, por assim dizer, táticas, em novidade corroborada pelo ex-treinador Arsène Wenger, diretor de Desenvolvimento Global de Futebol da Fifa. Os atacantes voltaram a explorar posicionamento no limite do impedimento, indicam dados reunidos pela Fifa. Por anos, o VAR gerou efeito oposto. Os jogadores, sabendo que qualquer imperfeição seria congelada, passaram a preferir posições de segurança. Não é uma revolução visível. É uma mudança de mentalidade que vai aparecer aos poucos nas estatísticas de corridas em profundidade, nos metros ganhos nas costas da defesa. O jogo aprende a confiar na tecnologia — e ajusta o corpo a isso. “O futebol, apesar de ser visto como esporte conservador, abraçou a tecnologia nos últimos anos”, diz Mattias Grafström, secretário-geral da Fifa.

O futebol avança, mas avança negociando com seus próprios fantasmas. “Ele havia ficado muito para trás, em relações a recursos de tomadas de decisões como há em outras modalidades”, diz Renan Borges, executivo de tecnologia da End to End, empresa de marketing esportivo. “Com a velocidade conquistada, cada vez mais estaremos perto de um ponto sempre desejado, o da tecnologia acabar por ser imperceptível, por natural.”

Com algum tolo romantismo, sempre se louvou o erro, os questionamentos, os xingamentos contra o juiz, como se um pouquinho de desonestidade fosse louvável — e o gol com a “mão de Deus” de Maradona, em 1986, é símbolo dessa postura, a contrafação e a esperteza transformadas em gesto genial. Dizia-se, e ainda se diz, que a dramaticidade do futebol reside na imprecisão e que a dúvida seria parte do espetáculo. E fica no ar uma pergunta incômoda: o que o mágico esporte de onze contra onze perde quando não erra mais? Nada, possivelmente. Sim, os torcedores nos estádios ainda gritam, esperneiam (e são protegidos por cães robotizados no México) — mas a resposta vem antes do brado. E adeus ao choro, porque os avatares não mentem, até porque não falam — e as certezas brotam antes de se ler essa frase. Haverá quem acredite ter perdido a graça, mas nada como o tempo para fazer valer novos hábitos. E quem dera houvesse um avatar de Neymar sem dores na panturrilha.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000

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