Um El Niño intenso provavelmente vai desestabilizar o clima global e ameaçar a agricultura nos próximos meses, mas estoques mundiais próximos a níveis recordes, as expectativas de condições quase normais em algumas regiões produtoras importantes e um planejamento antecipado podem limitar os impactos. Leia mais (06/19/2026 - 11h19)

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19.jun.2026 às 11h19

Um El Niño intenso provavelmente vai desestabilizar o clima global e ameaçar a agricultura nos próximos meses, mas estoques mundiais próximos a níveis recordes, as expectativas de condições quase normais em algumas regiões produtoras importantes e um planejamento antecipado podem limitar os impactos.

O El Niño, que tipicamente traz calor e seca para grandes partes da Ásia e chuvas intensas para as Américas, deve se intensificar, dizem meteorologistas, podendo superar eventos recordes anteriores que devastaram colheitas, alimentaram desastres e causaram dezenas de bilhões de dólares em perdas econômicas em todo o mundo.

"Há um lado positivo no que diz respeito aos estoques globais e às colheitas recentes de arroz e outros cereais", disse Shirley Mustafa, economista da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), acrescentando que os estoques mundiais provavelmente vão amortecer parte do impacto do El Niño.

O último super El Niño, em 2015/16, trouxe secas, inundações e temperaturas globais recordes, prejudicando a produção agrícola da Ásia à África. Seu antecessor, em 1997/98, causou danos generalizados, provocando inundações devastadoras, incêndios florestais e perdas nas safras.

Mas o episódio de 2026/27 pode ser diferente, já que anos consecutivos de safras recordes aumentaram os estoques globais de alimentos, especialmente nos principais países consumidores e exportadores.

Prevê-se que os estoques globais de trigo atinjam 279,95 milhões de toneladas métricas no início do ano agrícola, em 1º de julho, o maior nível em cinco anos, segundo dados do USDA.

A Rússia, maior exportadora mundial de trigo, juntamente com outros grandes produtores do Hemisfério Norte, está em plena colheita de uma safra excepcional, embora persistam preocupações com a safra de trigo dos EUA, que foi afetada por uma seca.

As reservas mundiais de arroz atingiram um recorde histórico de 196,16 milhões de toneladas no início de 2026, com a Índia —responsável por 40% das exportações globais— mantendo estoques cerca de cinco vezes superiores à meta do governo. A Indonésia, um importante importador global de arroz, também possui um estoque recorde.

O impacto do El Niño dependerá de quão bem o país se preparar este ano, incluindo melhorias nos sistemas de irrigação e bombeamento de água, disse Sutarto Alimoeso, presidente da Associação de Moinhos e Empresários do Arroz da Indonésia.

Enquanto a Austrália, o Sudeste Asiático e a Índia enfrentam a maior ameaça do El Niño, prevê-se que a China, a região do Mar Negro e a Europa enfrentem condições climáticas menos severas.

"O sistema climático europeu está geograficamente distante do El Niño e, embora às vezes haja ligações entre as condições do El Niño e os padrões climáticos europeus, essas ligações podem ser difíceis de prever", destacou um artigo de pesquisa publicado pelo Parlamento britânico nesta semana.

Normalmente, o El Niño traz condições mais chuvosas nas Américas, representando uma ameaça às plantações e à infraestrutura apenas quando as chuvas provocam inundações.

As comunidades que estão se recuperando das enchentes devastadoras ocorridas no Rio Grande do Sul há dois anos se preparam para um El Niño intenso que, segundo os meteorologistas, pode trazer chuvas extremas neste ano.

Em Porto Alegre, os escombros do desastre —incluindo casas demolidas de moradores que tiveram que deixar suas residências— permanecem como uma lembrança da enchente, que matou pelo menos 181 pessoas em maio de 2024.