Todo ano é assim — logo que chega o frio, trazendo a temporada das festas juninas, a paçoca reassume o papel de protagonista. É um tal de bolo de paçoca, pudim, brigadeiro, pavê, rocambole...Bom deixar claro que

Todo ano é assim — logo que chega o frio, trazendo a temporada das festas juninas, a paçoca reassume o papel de protagonista. É um tal de bolo de paçoca, pudim, brigadeiro, pavê, rocambole...

Bom deixar claro que nem toda paçoca é feita de amendoim e açúcar. Embora seja uma receita nacional, que se espalhou pelo mapa, cada região brasileira e cada cultura alimentar tem seu jeito de preparar. Em comum, só o processo — a palavra paçoca vem do tupi pa'soka, que significa esmigalhar à mão, desfiar, pilar ou esfarinhar.

Nascida como farnel de viagem no tempo em que se desbravava o país, a paçoca era sempre salgada. Comida de sustança, levava carne assada e farinha de mandioca trituradas no pilão. Virava um alimento seco, perfeito para ser ensacado e amarrado à sela dos vaqueiros, como conta Luís da Câmara Cascudo em História da Alimentação no Brasil.

"Quando vinha a fome, metia-se o polegar, indicador e médio, tirando-se uma porção, atirada à boca sem que a marcha se interrompesse."

Conforme foi se espalhando pelo país, a paçoca foi incorporando outros ingredientes. Entraram em cena a carne de sol e a carne-seca, as castanhas de caju e do Pará trituradas, a banana, a pimenta, o pinhão e até o peixe. Eventualmente, até entra um punhadinho de açúcar para equilibrar o sabor salgado. Mas aquela paçoca bem doce, feita de amendoim, presença garantida nas festas juninas, é paulista de nascença, assegura Câmara Cascudo.

Invenção do Vale do Paraíba (onde também se come paçoca salgada), a paçoca doce é companheira tradicional do café. A chef Heloísa Bacellar, autora do site Na Cozinha da Helô, cresceu naquelas bandas e sabe tudo do assunto.

A paçoca da roça leva farinha de mandioca ou de milho. Na fazenda, na época em que ter pão fresco era um luxo, era comida de café da manhã ou do lanche. Ninguém abria mão de uma colher de paçoca entre um gole e outro de café, servido na caneca de ágata.

A receita caipira autêntica, Helô reconhece que é meio trabalhosa. Depois de torrado no forno a lenha ou na frigideira de ferro, o amendoim deve ser soprado, para perder a pele vermelha, e socado com açúcar e farinha. Tem que saber manejar o pilão com paciência, para que o óleo do amendoim vá se soltando devagar, umedecendo a farinha, até que adquira a textura de farofa — se o pilão bate forte demais, voa farinha para todo lado.

Sorte que já existe uma versão caseira bem mais simples, com o liquidificador ocupando o lugar do pilão, receita da Helô que você confere no final da reportagem.

As festas dos santos celebrados em junho — São João, São Pedro e Santo Antônio — não são as únicas a botar a paçoca em evidência. Pelos interiores de São Paulo, especialmente no Vale do Paraíba, comer o doce de amendoim socado é tradição da Semana Santa.

Um dos pontos altos da Festa do Divino, realizada em maio, em São Luís do Paraitinga (SP), é o "Soca-Paçoca", com distribuição de paçoca doce e salgada à população, sem faltar o café.

Em Nazaré Paulista (SP), adivinha quem abre a Festa do Divino Espírito Santo? Ela, a paçoca, que desfila solene em um carro de boi todo enfeitado. O evento, chamado Chegada da Paçoca, relembra os tempos em que os devotos viajavam a cavalo, trazendo paçoca no embornal.

Nas cidades pequenas do interior, onde a cultura caipira resiste, quem não faz paçoca em casa compra o doce esfarelado, em saquinho, do jeito que ele sai do pilão. Já o povo da cidade grande pensa logo na paçoca em dois formatos, quadradinho ou rolha.

Criada em 1959, a paçoca Amor mudou de mãos algumas vezes e, hoje, é fabricada pela multinacional Arcor. O formato quadrado é o mesmo há 67 anos, assim como a receita, à base de amendoim, açúcar, sal e fécula de mandioca. Só a embalagem mudou um pouquinho — o antigo envelope foi trocado por uma embalagem selada nas duas pontas, que garante segurança alimentar.

Segundo Luiz Henrique Ferreira, gerente de comunicação da Arcor Brasil, os consumidores estranharam um pouco.

Na embalagem antiga, a paçoca esfarelava bastante, e os saudosistas sentem falta de abrir o envelope e jogar os farelos direto na boca, conta.

Apesar disso, o icônico coração vermelho sobre fundo amarelo virou love brand e já estampou móveis e louças da Tok&Stok, sapatilhas da AnaCapri, milk-shakes do Burger King e até maquiagem d'O Boticário — só para citar as collabs oficiais. "Nas nossas redes sociais, as pessoas postam fotos de pets com roupa da marca e já vimos até tatuagens", revela Cristian Gimenes, gerente de produto da Arcor.

Já a paçoca em formato de rolha é a marca registrada da Paçoquita, que pertence à Santa Helena Alimentos, fundada em 1942. A empresa octogenária também tem apostado em collabs, como o sorvete desenvolvido com a Gelato Borelli e o marshmallow criado com a Fini, e sempre lança edições limitadas para as festas juninas.

Este ano, a novidade é a Paçoquita Maçã do Amor, que chega ao mercado com duas reedições temáticas: as paçocas de coco queimado e de pamonha.

Agora, se você acha que paçoca é uma gulodice que sempre vai pesar na balança e na consciência, dê uma espiada no perfil @amopacoquita, que a Santa Helena Alimentos mantém no Instagram. Atletas e influenciadores fitness recomendam a paçoca com whey protein e devoram colheradas da nova linha vegana Paçoquita Power, produto cremoso sem açúcar, glúten ou lactose que foi lançado, em abril deste ano, na Paçoquita Power Run, corrida de rua realizada em Ribeirão Preto (SP).