A brasileira Luana Salles, 27, está presa em um centro de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) em Macclenny, na Flórida...
A brasileira Luana Salles, 27, está presa em um centro de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos) em Macclenny, na Flórida, e afastada da filha dela, de 1 ano, após chamar a polícia para atender uma ocorrência. Luana vive há dois anos no país e aguardava a resposta de um pedido de asilo.
A criadora de conteúdo digital e garçonete brasileira foi presa após acionar a polícia local devido a um conflito com o ex-companheiro e pai de sua filha, em 26 de maio. Jéssica Cabral, 32, irmã de Luana, afirmou ao UOL que o homem — também brasileiro — foi buscar a criança, que estava sob os cuidados da mãe, e informou que tinha um compromisso, por isso precisaria deixar a menina com uma babá — já que o ex-casal mantém guarda compartilhada da bebê.
Jovem se recusou a deixar a filha com alguém que não conhecia e disse que ligaria para o trabalho informando que não compareceria naquela data. Nesse momento, o homem começou a gravá-la, e Luana pediu que as imagens não fossem registradas. Diante da situação, ela decidiu acionar a polícia para auxiliar no caso, explicou Jéssica.
Quando a polícia chegou, o homem apresentou um vídeo que mostrava Luana fechando a porta de casa. De acordo com Jéssica, que também mora nos Estados Unidos, os agentes afirmaram que, naquele estado, impedir uma pessoa de sair de um local contra a vontade dela pode configurar crime. A brasileira acabou sendo presa por suspeita de violência doméstica e cárcere privado, e a polícia acionou o ICE para verificar sua situação migratória.
Ainda enquanto Luana estava presa, o ex-companheiro informou à polícia que não queria registrar ocorrência contra ela. Em 4 de junho, um promotor da Flórida comunicou à Justiça local que decidiu não apresentar denúncia formal contra a brasileira pelos dois crimes. Apesar disso, o ICE determinou o encaminhamento da jovem ao Centro de Detenção do Condado de Baker, sob custódia do serviço de imigração, na cidade de Macclenny, na Flórida, em 7 de junho.
Família declarou que a polícia de imigração não informou o motivo da prisão da brasileira. Ao UOL, o ICE afirmou que a jovem estava em situação ilegal (veja mais abaixo). Desde que foi detida, os contatos da família com a garçonete ocorrem apenas por telefone, conforme relatou Jéssica. De acordo com os parentes, a jovem ainda não entende porque foi presa e está preocupada com a ausência na vida da filha pequena.
Uma audiência do caso de Luana foi realizada na quarta-feira (17) e foi estipulado o valor de fiança de US$ 10.000 (aproximadamente R$ 51,2 mil). Se o pagamento for realizado, ela poderá aguardar o julgamento em liberdade. Outra audiência para analisar a situação de brasileira, incluindo o pedido de asilo no país e ver se há necessidade de envio de documentação adicional, está marcada para segunda-feira (23).
Diante da situação, a família decidiu abrir duas campanhas de arrecadação, uma nos EUA e outra no Brasil. As campanhas visam custear a fiança da brasileira e os valores gastos com advogado. No site GoFundMe, a meta de arrecadação é de US$ 15 mil dólares (aproximadamente R$ 77,4 mil) e até hoje havia sido arrecadado quase US$ 13 mil (R$ 67 mil). Já na plataforma brasileira Vakinha, a campanha tem a meta de R$ 50 mil e arrecadou R$ 70.
Irmã afirmou torcer para conseguir pagar a fiança de Luana o mais rápido possível, para que a brasileira possa voltar para a filha e retomar o trabalho, a fim de quitar as dívidas acumuladas. "A gente espera que ela possa aguardar ao processo [migratório legal] dela, como deveria ter sido, dentro da casa dela com a filha e trabalhando porque ela não fez nada ilegal", acrescentou Jéssica.
Luana morava nos Estados Unidos há dois anos e, segundo a irmã, não ficou nenhum dia ilegalmente no país. A jovem, natural de Brasília, entrou com pedido de asilo após vivenciar uma situação de violência no Brasil, explicou Jéssica, sem entrar em detalhes. O pedido de asilo foi realizado, ainda conforme a familiar, antes do vencimento do visto de turista dela em 2024.
Jéssica explicou que mora nos EUA há cerca de 4 anos e disse que a irmã foi visitá-la antes de pedir o asilo. Quando chegou ao país, ela namorou um brasileiro e engravidou. Eles se separaram depois e a menina, nascida nos EUA, ficou majoritariamente sob os cuidados da mãe.
Atualmente, a filha de Luana está sendo cuidada pelo pai. O homem também mora nos EUA e está aguardando a obtenção do visto de residência permanente no país, de acordo com a família da brasileira.
A gente está se sentindo devastado, principalmente, por causa da filha da Luana, que é pequenininha e mamava no peito ainda. Minha mãe está no Brasil se sentindo impotente com essa situação e não conseguimos ajudar. Nossa família é simples, apesar de eu e a Luana estarmos aqui nos Estados Unidos, a gente vive trabalhando e lutando para conseguir pagar as coisas. Então, a gente não tem condição financeira para lidar com todo esse gasto inesperado. A gente está bem triste, preocupado e chateado com tudo o que aconteceu.Jéssica Cabral, irmã de Luana, à reportagem
A irmã disse ao UOL que Luana é trabalhadora e excelente mãe. "Ela é uma mãe exemplar. Sempre esteve 100% presente na vida da filha e é ligada nas questões de educação e evolução da menina, muito preocupada com alimentação, com a saúde e tudo. Então, ela é uma pessoa do bem, uma pessoa que tem muitos amigos, muito querida pela família também. A gente tá sofrendo muito com tudo isso que estamos passando", concluiu.
Porta-voz do ICE disse ao UOL que Luana é uma imigrante ilegal. À reportagem, a polícia de imigração confirmou que a brasileira foi detida em operação conjunta com a Cadeia do Condado de Lake após ser presa sob acusações de violência doméstica e cárcere privado.
A polícia norte-americana afirmou que a jovem entrou nos EUA em 30 de maio de 2024 pelo Aeroporto Internacional de Miami, na Flórida. Ela usava um visto B-2 (turismo) de não imigrante à época e tinha permissão de permancer no país por um período temporário, ou seja, até 29 de novembro do mesmo ano.
Questionado pelo UOL, o ICE não respondeu se Luana está na lista para obter asilo nos Estados Unidos, como alegado pela família dela. A polícia acrescentou incentivar imigrantes ilegais usarem o aplicativo CBP Home, do Departamento de Segurança Interna norte-americano, para solicitar o retorno voluntário aos seus países de origem.
Segundo o ICE, os EUA estão oferecendo uma passagem aérea gratuita e US$ 2.600 (cerca de R$ 13,4 mil) para os imigrantes ilegais se autodeportarem. "Encorajamos todas as pessoas que estão aqui ilegalmente a aproveitarem esta oferta e a reservarem a chance de voltar aos EUA de forma legal para viver o sonho americano. Caso contrário, serão presas e deportadas sem direito a retorno", finalizaram.
Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse que o Consulado-Geral do Brasil em Orlando, nos EUA, está à disposição para prestar atendimento e orientação cabíveis à brasileira. Em nota à reportagem, a pasta apontou que a rede consular está "particularmente dedicada aos brasileiros detidos pelo ICE e seus familiares, a fim de prestar a assistência consular, dentro da legislação internacional e norte-americana".
Itamaraty indicou que a atuação consular brasileira é pautada pela legislação internacional e nacional. O ministério ainda afirmou que não divulga informações de cidadãos que solicitam serviços consulares, bem como não fornece detalhes sobre a assistência prestada a brasileiros em razão do direito à privacidade e em cumprimento à Lei de Acesso à Informação.



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