Da pátria de chuteiras de Nelson Rodrigues, chegamos às chuteiras sem pátria. O patriotismo foi descalçado, e os artelhos agora vão de magenta. Leia mais (06/19/2026 - 15h00)

Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

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19.jun.2026 às 15h00

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Da pátria de chuteiras de Nelson Rodrigues, chegamos às chuteiras sem pátria. O patriotismo foi descalçado, e os artelhos agora vão de magenta.

Esse rosa sem fronteiras poderia ser política antidamaresiana da Fifa, mas os criadores de um prêmio para Trump devem pensar nas mulheres mais aos pés do que calçando o pé dos homens. Outra hipótese é os marqueteiros das grandes marcas terem ido todos à mesma IA fã da Barbie. Ou a máfia rósea quis homenagear a Mangueira, dado o verde do gramado.

Seja como for, uma parte do patriotismo esmaeceu no campo. A velocidade contemporânea expulsou outra: o hino oitocentista "gigante pela própria natureza" foi cortado ao meio. Na Copa das Confederações de 2013, a torcida reagiu, cantando à capela a segunda parte. Essa multidão verde-amarela era branca e, dado o preço do ingresso, rica. A mesmíssima que, na Copa de 2014, mandou Dilma para aquele lugar para o qual se mandam os árbitros.

O nacionalismo naqueles anos Dilma expressou o antipetismo. Desde então, deu vazão a um patriotismo patético: do patriota do caminhão, da reza ao pneu, da tornozeleira eletrônica.

Apenas neste Lula 3, a esquerda voltou a disputar os símbolos nacionais. Esse time tinha deixado o verde-amarelo no vestiário das Diretas Já. Foi de lá, aliás, que o prefeito de Nova York resgatou o capitão da Democracia Corintiana para saudar a seleção.

A versão petista do nacionalismo combina a camisa amarela da transição democrática com um orgulho dos recursos naturais bem cinquentista, vide o cartaz "o Pix é nosso" que Lula levou a campo graças à bobeira do ataque bolsonarista.

O esquadrão bolsonarista foi para a retranca e deixou Lula jogar solto. O presidente correu na defesa da nação contra o ataque estrangeiro bem na zona do agrião, a dos impostos. Depois desse gol contra de taxação ao Brasil, os irmãos Bolsonaro reclamaram de apropriação esquerdista da nação. Um gritou da Disneylândia, enquanto outro caía nas pesquisas mais do que Neymar em campo.

Mas aí os times já tinham invertido os lados do tapete. O patriotismo lesa-pátria pegou mal até entre os vaiadores de Dilma, antes prontos para dar a taça ao Bolsonaro 01. Somou-se o cartão vermelho a Vorcaro, dadas suas festas de vestiário.

Os camisas 01 e 03 reagiram e foram com tudo para a linha de frente. A jogada surpreendeu até o adversário: um chapéu no patriotismo. Apesar do monopólio legítimo da violência compor o próprio conceito de Estado, pediram que um país estrangeiro exercesse a função precípua do Estado nacional, a de polícia. Deram essa de bandeja para o oponente, que partiu para o abraço.

Com o placar contrário, o esquadrão bolsonarista perdeu a cabeça. Eduardo B. acabou expulso de campo. Punição inócua, pois o jogador já abandonara o gramado nacional para recorrer com o capitão da sua liga. Mas nunca se sabe a jogada de Trump, que pode até trocar de camisa —dado seu encanto com o artilheiro do time contrário.