Piedade Agege de Carvalho aprendeu cedo o sentido de um lema que repetia com frequência: "A cada dia uma dor, a cada dia uma alegria". Leia mais (06/19/2026 - 18h20)
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19.jun.2026 às 18h20 Atualizado: 19.jun.2026 às 19h50
Piedade Agege de Carvalho aprendeu cedo o sentido de um lema que repetia com frequência: "A cada dia uma dor, a cada dia uma alegria".
Dadica, como gostava de ser chamada, era a filha do meio de uma família de cinco filhos que vivia em Alpinópolis (MG). Sua mãe era descendente de portugueses e seu pai, árabe, havia atravessado o Atlântico aos 14 anos para fugir da guerra e recomeçar a vida como mascate em Minas Gerais sem saber uma palavra do português.
Décadas mais tarde, Dadica dizia aos filhos: "Lembra de onde você vem, honra teus antepassados, honra a tua origem".
Ela já estava com um casamento arranjado e usava aliança quando se apaixonou de verdade, o que mudaria sua vida. Estava sentada no banco de uma praça em Alpinópolis, quando viu um policial abordando de forma desrespeitosa um homem que andava a cavalo, que reagiu.
O homem a cavalo era Wilson, um dentista que morava em Passos, a cerca de 100 km dali. Dadica ficou encantada com a coragem do cavaleiro e passou a segui-lo pela cidade. Ela devolveu a aliança e ele encerrou o namoro para que pudessem casar.
Juntos, tiveram um laboratório de próteses dentárias, lojas de roupas, uma fábrica de sapatos, uma camisaria e uma rede de pensionatos, em três cidades diferentes ao longo de décadas. Tiveram também cinco filhos: Wilson, Maristela, Sebastião, Marco Antônio e Soraya.
Todos os dias, o casal cumpria o ritual de assistir a novela das 18h de mãos dadas.
Antes de trabalhar com o marido, Dadica já ganhava o próprio dinheiro costurando roupas e vendendo bolos. Os dois eram firmes na postura contra racismo e machismo —algo que às vezes tornava a vida em Passos, para onde se mudaram, mais difícil.
Wilson teve um infarto na época em que a fábrica de sapatos e a camisaria entraram em falência. Sobreviveu, mas a recomendação era que deixasse de trabalhar.
Foram tempos de penúria e preocupação até que uma cunhada sugeriu que eles se mudassem para Campinas (SP), onde ela morava. Pela enésima vez, o casal recomeçou: abriram um pensionato, que vingou e deu origem a outras unidades na região.
Recuperado, Wilson viveu por mais de dez anos após infartar. A casa deles virou o grande centro de encontros da família.
Pouco depois dos 60, Dadica descobriu um câncer na mama e enfrentou um tratamento bem-sucedido. Em 2016, estimulada pela família, topou participar de uma campanha publicitária pela conscientização da doença.
No estúdio fotográfico, ao notar que todas as participantes tirariam fotos vestidas, fez questão de mostrar o peito com a cicatriz.
"Esse peito aqui amamentou 5 filhos. Não tenho a menor vergonha dele. Renho orgulho, porque eu superei o câncer. E não adianta nada a gente mandar foto bonita pra quem acabou de descobrir um câncer", disse, segundo conta a filha Soraya. A foto estampou outdoors e foi enquadrada na casa da família.



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