"Pode nos falar sobre a morte natural de idosos? Penso nos que simplesmente desligam, às vezes dormindo, sem sofrimento", pergunta uma seguidora da médica legista Cristine Scattolin, 39, no perfil Café com Perícia Médica, no Instagram. Leia mais (06/19/2026 - 12h00)
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19.jun.2026 às 12h00
"Pode nos falar sobre a morte natural de idosos? Penso nos que simplesmente desligam, às vezes dormindo, sem sofrimento", pergunta uma seguidora da médica legista Cristine Scattolin, 39, no perfil Café com Perícia Médica, no Instagram.
Ela está entre as mais de 160 mil pessoas que começaram a acompanhar a rede social de Cristine desde 2025, quando a legista resolveu compartilhar conteúdos sobre o processo da morte e sobre como é o trabalho no IML (Instituto Médico Legal).
"Há muita curiosidade sobre morte e cadáver. Ainda é um tabu na nossa sociedade", conta Cristine, que inicialmente publicava vídeos para fazer resumos de conteúdos que estudava. "As pessoas foram chegando."
É comum encontrar vídeos e publicações nas redes sociais falando sobre saúde: qual alimentação faz o corpo funcionar melhor, qual exercício melhora a dor nas costas, quais jogos aumentam a atividade cerebral. Ou explicações sobre diagnósticos e tratamentos de doenças como câncer e Alzheimer. O foco, porém, é sempre a vida.
Quando já não há mais nada a fazer e a pessoa recebe o atestado de óbito de um familiar, quem explica o que aconteceu com o corpo e o que acontecerá depois? Ou, ainda, como entender o que acontecerá com o próprio corpo quando tudo terminar?
Foi assim que a legista e professora de epidemiologia na pós-graduação em medicina do trabalho da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) virou influenciadora. Ela reluta a aceitar a função de influencer, apesar de conversar diretamente com a comunidade criada na internet.
"Eu digo que, agora, um dos meus objetivos na rede social é normalizar o que tem de mais normal no mundo: morrer. Ninguém escapa disso", afirma.
No Brasil, uma média de 4.000 pessoas morrem por dia, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Quando as mortes são violentas ou suspeitas, os corpos vão para necropsia em uma das 381 unidades do IML do país. Cristine trabalha analisando esses casos em uma cidade do litoral de São Paulo, onde mora e trabalha.
Ela convive com o "cheiro de morte", o odor específico de um corpo humano em putrefação, que por questões biológicas e evolutivas é mais repugnante do que o de qualquer outro animal. E confirma aos seguidores curiosos: o cheiro fica na roupa.
Mas, para além do cheiro, diz Cristine, o corpo morto fala. Segundo ela, olhar os padrões do óbito fez com que mudasse a forma de enxergar a vida e recebesse pistas sobre como funciona a sociedade.
O IML recebe apenas mortes não naturais, então Cristine lida com vítimas de acidentes, afogamentos, quedas e intoxicações. O acidente de moto, diz, é de longe o mais comum.
"A gente vê pessoas que saíram para trabalhar e caíram de moto, que estavam em uma festa e foram atacadas ou uma pessoa que teve um acidente bobo e morreu. Traz a perspectiva de que, do nada, a gente pode não estar mais aqui, então tem coisa que não vale a pena ficar se preocupando", diz Cristine.



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