Como cavalos de Troia, os pipoqueiros custaram a penetrar na sala de espera dos cinemas
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras
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Quando começou, o cinema era um divertimento infantil. Os filmes, mudos e acelerados, mostravam heróis e heroínas em tiroteios e correrias, e os primeiros a perceber o potencial comercial daquilo foram os pipoqueiros. No começo, ficavam à distância com sua carrocinha fumegante, mas já a fim de aproximar-se do prédio onde se exibiam os filmes. Um dia, discretamente, instalaram-se na calçada em frente à bilheteria.
A crise econômica de 1929 foi boa para ambos. O cinema se tornou a forma ideal de escapismo e a pipoca, um alimento barato e ideal para matar a fome da plateia. Quando os exibidores acordaram, os pipoqueiros estavam dentro de sua sala de espera —um cavalo de Troia em forma de bonbonnière. E, como os filmes já eram sonoros, não se ouviam os caninos e molares mastigando em massa durante a projeção.
Mas, então, a partir do pós-guerra, vieram os filmes sérios e intelectualizados do neorrealismo, da nouvelle vague e dos cinemas do Terceiro Mundo, inclusive o do Brasil. Nesse universo de adultos, a pipoca não tinha lugar —imagine assistir a "Roma Cidade Aberta" (1946), "Jules et Jim" (1961) ou "Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964) mastigando pipoca e ruminando como uma anta.
Foram anos terríveis para a pipoca. Mas ela não se entregou. Conservou sua posição nos saguões e soube esperar. Quando surgiram George Lucas e Steven Spielberg, reduzindo o cinema à idade mental de 13 anos, ela viu que era a hora. Sua venda superou a renda dos ingressos. E, com a chegada do streaming, os exibidores, desesperados, tiveram de se unir aos pipoqueiros. As poltronas foram adaptadas para receber sacos cada vez maiores. O volume da projeção aumentou para disfarçar o troar da mastigação e a pipoca passou a ser a razão da ida ao cinema.
Até há pouco, comia-se a pipoca e se jogava o saco fora. Hoje, segundo li na Ilustrada (9/5), o saco ficou tão importante quanto a pipoca. É customizado de acordo com o filme. Virou peça de colecionador, a ser levada para casa. O cinema voltou a ser infantil.
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