Medicina tradicional ganha espaço no Brasil, entra no SUS e desperta debate sobre ciência, ancestralidade e cuidado integral
19/05/2026. Revista. O tema é medicinas tradicionais milenares. Personagem: Atmo Danai. - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press) Dor na lombar, crises de enxaqueca e uma rotina puxada fizeram a estudante Ana Lyvia Blower, 23 anos, entrar em um consultório de acupuntura pela primeira vez, em 2017. Não foi curiosidade nem busca por terapias alternativas. A indicação veio do médico.
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"Eu tinha muitas dores de cabeça. Não havia nenhum diagnóstico específico, nada como sinusite ou outro agravamento. Era dor de cabeça, dor lombar, questões ligadas ao estresse e à rotina. A acupuntura foi indicada junto com a medicina convencional", conta.
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O que começou como complemento virou parte importante do cuidado com a própria saúde. Ao longo dos anos, ela alternou períodos de tratamento e pausa. Hoje, já com diagnóstico de enxaqueca, diz perceber diferenças importantes.
"A acupuntura ajudava muito. Eu evitava crises fortes. Quando a dor vinha, fazia massagens nos pontos indicados pela médica e também a auriculoterapia com sementes. Para mim, funciona", relata.
A experiência de Ana não é isolada. Em um país em que procedimentos ligados às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) cresceram de 7,1 milhões em 2023 para 10 milhões em 2025, segundo o Ministério da Saúde, terapias ancestrais atravessam fronteiras culturais e chegam cada vez mais a consultórios, hospitais e unidades públicas.
No Sistema Único de Saúde (SUS), são oferecidas 29 práticas integrativas. Entre elas estão acupuntura, eletroacupuntura, ventosaterapia, meditação, yoga, tratamento ayurvédico, fitoterapia, massagem, automassagem e práticas corporais ligadas à medicina tradicional chinesa.
A oferta, porém, varia conforme a estrutura dos municípios e a organização dos serviços locais. As práticas podem ser encontradas em Unidades Básicas de Saúde (UBSs), Centros de Práticas Integrativas, Centros de Convivência e outros equipamentos da rede pública.
A política nacional reconhece essas práticas como complementares aos protocolos clínicos estabelecidos, e não substitutivas. O objetivo, segundo a pasta, é ampliar possibilidades terapêuticas para profissionais de saúde e pacientes.
O crescimento, porém, vem acompanhado de perguntas, como o que dessas tradições milenares já encontrou respaldo científico? O que permanece no campo cultural e filosófico? E como equilibrar saber ancestral e medicina baseada em evidências?
Com mais de dois mil anos de história, a medicina tradicional chinesa parte de uma lógica diferente da medicina ocidental. Graduado pela Universidade de Medicina Tradicional Chinesa de Liaoning, Qin Jun explica que a acupuntura busca restaurar o equilíbrio do organismo.
"O corpo precisa estar em equilíbrio. Quando algo sai do lugar, pressão alta, pressão baixa ou algum desequilíbrio, a acupuntura atua para ajudar o organismo a recuperar esse equilíbrio", detalha.
Segundo ele, a tradição chinesa trabalha a ideia de linhas energéticas invisíveis no corpo. "São caminhos que não vemos, mas sentimos. O corpo manifesta sinais quando algo não está funcionando bem."
Qin também destaca diferenças entre Brasil e China. "No Brasil, muitas vezes se usam apenas as agulhas. Na China, a prática tradicional costuma combinar diferentes técnicas para potencializar os resultados", destaca.
Na experiência clínica dele, as queixas mais frequentes são dores. "Dor de cabeça, coluna, joelho, braço. Muitas pessoas sentem melhora rapidamente", reforça.
Para Qin Jun, a acupuntura parte de uma lógica construída ao longo de milhares de anos de observação clínica. "Quando existe um problema interno, o corpo manifesta sinais. Há pontos específicos que refletem esses desequilíbrios", explica.
Na visão tradicional chinesa, o cuidado não está apenas ligado ao tratamento quando a doença já se instalou, mas também à prevenção. "Na China, muitas vezes, o tratamento começa pela acupuntura. Quando não melhora, pensa-se em outros recursos. Aqui, muitas pessoas ainda procuram primeiro remédio, exame ou cirurgia", avalia.
A visão tradicional chinesa, porém, convive com um debate constante no Ocidente sobre mecanismos fisiológicos, evidência científica e critérios clínicos. É justamente nesse ponto que especialistas em medicina integrativa defendem ampliar o olhar sem abandonar critérios técnicos.
Embora a busca por abordagens integrativas cresça, especialistas defendem que complementar não significa substituir. A ginecologista e obstetra Erika Pimenta afirma que há espaço para integração, desde que exista responsabilidade. "Integrar não significa abandonar a ciência. Significa ampliar o olhar sem perder responsabilidade técnica", diz.




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