Número recorde de brasileiros tem buscado residência no Paraguai nos últimos meses, motivados por ideologia política, baixos impostos e por vídeos nas redes sociais. BBC News Brasil acompanhou a rotina de vários deles em Ciudad del Este.

Role, Enviado da BBC News Brasil a Ciudad del Este, ParaguaiPublished 16 abril 2026Tempo de leitura: 16 min"Bem-vindos ao Paraguai", repetia alto o chefe do serviço de imigração em Ciudad del Este enquanto caminhava entre cadeiras de praia, bancos de plástico e cangas.

"Amanhã, às 7h, começaremos a distribuição de fichas. Às 8h, começa o atendimento para quem quer tirar residência."

A mensagem era destinada a centenas de brasileiros organizados em uma longa fila que faziam silêncio - pontuado por aplausos - para ouvir as orientações em espanhol após um dia inteiro acampados sob o sol forte e no chão de terra vermelha de Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil.

Era noite do penúltimo domingo de março. Só dali a 12 horas começaria de fato o mutirão itinerante do governo paraguaio para agilizar a emissão de documentos para quem quer se mudar para o país.

A fila, porém, já quase dobrava a esquina, e os brasileiros ainda tinham pela frente várias horas mais de calor, chuva e mosquitos para garantir atendimento no dia seguinte.

"Viemos conhecer tudo isso que o Paraguai tem para oferecer aos brasileiros", dizia sorridente Delly Fragola, de 55 anos, sentada em uma cadeira de praia colorida comprada para encarar a espera.

Dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis, no interior de Goiás, ela tinha chegado às 8h junto com a filha e o genro.

Estavam ali porque o "Brasil não tem mais oportunidades" para seu negócio. No Paraguai, diziam, poderiam encontrar "mão de obra mais facilitada".

"No Brasil, ninguém quer trabalhar."

Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil

Fim do Promoção Agregador de pesquisas

Um pouco mais atrás, o também empresário Dilberto Wegrnen, de 63 anos, de Cascavel, no interior do Paraná, tomava uma cerveja enquanto esperava assar as carnes de um churrasco improvisado numa grelha em cima de um tonel, organizado pelos novos amigos de espera.

Dilberto estava ali pela crença de que "o Paraguai vai ser o maior país da América Latina muito em breve" e também porque tem muitas críticas ao governo Lula.

"Empresários estão saindo do Brasil para vir para o Paraguai. Aqui, a carga tributária é muito menor e as leis trabalhistas são muito mais acessíveis. Tudo isso leva a quê? A essa fila enorme aqui hoje", explicava o paranaense.

O grupo faz parte de uma onda crescente de brasileiros que querem se mudar para o Paraguai e tem chamado a atenção de autoridades do país, que desde o ano passado promove mutirões para organizar a demanda e atender os aspirantes a residentes.

A principal porta de entrada é Ciudad del Este, famosa pelas compras baratas e comércio caótico do outro lado da Ponte da Amizade. O mutirão de março foi o segundo do ano na cidade — somados, foram cerca de 4 mil atendimentos só ali — e o governo paraguaio planeja mais 19 ao longo do ano no país.

Em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os segundos colocados, os argentinos (4,3 mil).

Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.

A BBC News Brasil acompanhou por três dias a fila do mutirão. Todos com quem a reportagem conversou disseram estar ali movidos por suas posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos.

São pessoas de todas as regiões do Brasil, que em geral começam a sonhar com a vida no Paraguai navegando nas redes sociais.