Memorando de paz abandona muitos dos objetivos de guerra do presidente americano no início do conflito

Após o fracasso em derrotar o Irã com bombas, será que o presidente Donald Trump conseguirá salvar algo com subornos? Depois de semanas de negociações sobre como encerrar a guerra, ele e seu homólogo iraniano assinaram um breve memorando de paz. O documento se resume à promessa de muito dinheiro para o Irã, desde que o país consiga convencer Trump de que abandonou seus planos de desenvolver armas nucleares. Trata-se de uma aposta enorme e improvável, que deixa os países do Oriente Médio com muito o que refletir.

O memorando abandona muitos dos objetivos de guerra de Trump. Não haverá mudança de regime; nenhum auxílio para o povo iraniano; nenhum limite para os mísseis balísticos do Irã ou para seu apoio a grupos aliados. Em vez disso, o acordo se concentra em dois pontos. Um deles é a reabertura do Estreito de Ormuz, onde a insensatez da guerra de Trump e a humilhação de sua retratação ficam evidentes. Antes dos combates, os navios tinham livre passagem; após os 60 dias previstos neste acordo, é bem possível que tenham que pagar uma taxa.

O outro ponto é o programa nuclear. O regime praticamente não cedeu nada. Sua promessa de não obter uma bomba atômica é antiga. O país irá reduzir o enriquecimento de seus estoques de urânio e discutir o restante de seu programa, mas as questões são complexas e o Irã é mestre em protelar. E há também os subornos. O Irã pode exportar petróleo e derivados imediatamente. Dependendo do progresso das negociações, os Estados Unidos irão descongelar ativos no valor de dezenas de bilhões de dólares, suspender as sanções e ajudar a criar um fundo de pelo menos US$ 300 bilhões para reconstrução e desenvolvimento. Trump está cansado da guerra. Se, como planejado, as tropas americanas se retirarem em 30 dias, sua capacidade de usar a força será limitada.

O regime, portanto, tem uma oportunidade sem precedentes de trocar armas nucleares por dinheiro e investimentos. Ao contrário de presidentes anteriores, Trump não se importa com a democracia. Tendo transformado o Estreito em arma, o Irã pode agora ver menos valor em bombas nucleares. O regime é impopular internamente: o dinheiro seria bem-vindo.

No entanto, há muitos motivos para acreditar que essa aposta fracassará. Os líderes linha-dura do Irã não têm motivos para confiar nos Estados Unidos. Eles esperam que Israel sabote o acordo. A influência regional que tanto almejam vem de serem inimigos do Grande Satã. O programa nuclear oferece prestígio e, potencialmente, proteção. Os inspetores terão dificuldades para impedir que trapaceiem. Os líderes iranianos serão tentados a ter o melhor dos dois mundos.

Israel argumentou a favor desta guerra, mas ela se revelou uma amarga decepção. Lutou lado a lado com os americanos, apenas para que Trump a excluísse das negociações e minasse sua campanha contra o Hezbollah no Líbano. Isso pode custar a reeleição de seu primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, em outubro.

Veja maisLíder supremo do Irã diz que Trump estava desesperado por acordo de paz e usou ‘meios de influência’

Vance defende acordo de Trump e alerta Israel de que EUA são seu ‘único aliado poderoso’ no mundo

Exército dos EUA anuncia que suspendeu o bloqueio a portos do Irã

A guerra foi um fracasso estratégico, porque o Irã continua sendo uma ameaça. Netanyahu testou até onde os Estados Unidos estavam dispostos a ir, e não foi o suficiente para que Israel prevalecesse. Qualquer sucessor precisará elaborar uma nova doutrina de segurança.

Os países do Golfo precisam restaurar sua reputação como refúgios de prosperidade em uma região violenta. Preparem-se para algumas ilusões, mas o fato é que os drones e mísseis iranianos continuarão a representar uma ameaça. Oleodutos que contornam o Estreito de Ormuz serão úteis.

Mas o Golfo também precisa reformular sua segurança. Ninguém pode ter certeza de quão dispostos os Estados Unidos estarão a lutar no futuro. Alguns países buscarão maneiras de dissuadir o Irã — os Emirados Árabes Unidos poderiam buscar laços ainda mais estreitos com Israel. Outros podem tentar se acomodar. Outros ainda podem se manter em um meio-termo.

Trump nunca deveria ter começado esta guerra. Mais uma vez, ele está baseando sua saída na ideia de que as pessoas fariam qualquer coisa por dinheiro. No entanto, a primeira regra da diplomacia é não imaginar que seu oponente pensa como você.