Uma editora da BBC fez um teste para saber o que acontece quando uma mente ansiosa tenta seguir instruções simples de movimento e respiração para descansar o fogo da cabeça por um mês inteiro.
Quando a professora anunciou que ia apagar algumas das luzes da sala, eu senti o alívio de quem tinha chegado no limite do atraso, mãos frias do maio gelado paulistano no lado de fora. A partir dali, poderia cair meu filho na escola ou cair o governo de Cuba, e eu só saberia depois do savasana.
Talvez essa fosse exatamente a sensação que mais buscava naquela aula e em todas de ioga que venho fazendo há alguns anos: a libertação, mesmo que efêmera, de um estado de prontidão.
Essa libertação é ansiada por motivos óbvios para mim, uma mulher 40+ nessa metrópole relaxante, e editora na BBC News Brasil num país e num mundo em que se morre de tudo, menos de tédio.
Mas esse estado mental não dura nem perto de 60 minutos, no meu caso. São só alguns instantes, no meio do todo, em que uma postura ou outra funciona como uma rédea, forçando corpo e pensamentos a andar numa mesma linha.
No mais, eu sigo sendo um cartoon que vi na revista New Yorker, no qual uma mulher coloca a roupa para lavar mentalmente enquanto deitada no tapetinho no savasana (o momento de "entrega" final da ioga, deitado, "quando o seu corpo recebe todos os benefícios da prática").
Palavras como "entrega" merecem minhas aspas. Mesmo depois desses anos, minha aproximação da ioga é desconfiada, ou tenta ser.
O humor e o cinismo foram sempre meu escudo para não soar ingênua, para não ser enrolada pela vida, para não ser enrolada pelos meus sentimentos.
Como fica tudo isso se eu simplesmente virar new age da ioga?
Eu sei como fica. No emaranhado que sou eu: fazedora de promessa a meu santo e com boletos suficientes pagos em psicanálise (e alguns de mapa astral). A mesma pessoa que se pergunta: isso que insiste na minha cabeça é intuição ou é neurose?
Que outra questão estou querendo resolver me jogando nessa nova onda de ioga?
Veja Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil
Fim do Promoção Agregador de pesquisas
A pergunta já me acompanhava, mas foi irresistível quando o professor Lucas disse, no final de uma aula, que seria "transformador" fazer 30 dias seguidos de ioga — de hot yoga, no meu caso, aquela em que os participantes se alongam e se concentram numa sala aquecida. Era o mês do desafio da casa tradicional na rua Mourato Coelho, no bairro de Pinheiros: fazer 30 dias de aula. Seguidos.
Vamos lá, 30 dias, independentemente das notícias, da gangorra hormonal, da chuva, do frio de maio. Vamos lá, 30 dias.
Lembrei do escritor francês Emmanuel Carrère, que começa seu maravilhoso livro Ioga num retiro de 10 dias de meditação desfiando os conceitos e pensando como escrever um livro sobre... ioga. A vida tinha outros planos para ele.
Eu também queria escrever sobre ioga.
Atravessei os 30 dias, pois bem. Aconteceu de tudo, como sempre, no noticiário. Passaram cavalos negros, Casa Branca, uma permanência recorde numa posição de equilíbrio, a manhã mais fria do ano, afonia, gripe.
Atravessei os 30 dias. E só depois revisitei o Ioga, do Carrère:
"A ioga diz que nós somos outra coisa além do nosso pequeno eu confuso, fragmentado, amedrontado, e que nós podemos acessar essa outra coisa. Trata-se de um caminho, outros o tomaram antes de nós e o indicam. Se o que eles dizem é verdade, vale a pena irmos até lá e conferirmos nós mesmos."
Vale a pena conferir por nós mesmos. E talvez você esbarre com um convite para tal neste fim de semana: 21 de junho é o Dia Internacional da Yoga.


0 Comentário(s)
Deixe seu comentário