O torneio com 48 times não estragou o brinquedo; expandiu a brincadeira

Jornalista e roteirista

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19.jun.2026 às 16h48

Circula por aí um meme que resume meu atual desencanto com a seleção brasileira. De um lado, o vestiário de 1994: jogadores reunidos, tocam pandeiro e cantam numa união genuína e espontânea. Do outro, o vestiário atual: atletas milimetricamente arrumados, encaram o espelho para garantir o melhor ângulo do corte de cabelo e o engajamento nas redes. O império do narcisismo digital substituiu o suor coletivo. Olhar para o nosso futebol dá desânimo. Sorte nossa que a Copa é muito maior do que o Brasil.

Ainda que eu torça convictamente pela nossa camisa, o verdadeiro espetáculo não fica só dentro do campo. Como colunista de esporte, durante anos escrevi sobre os bastidores da Fifa e da CBF, chafurdando na lama da corrupção e da cartolagem que comanda o esporte. Sei exatamente como a engrenagem é suja. Mas sou incapaz de resistir ao magnetismo dessas semanas. A Copa é infinitamente maior do que os engravatados que a controlam e os contratos de patrocínio que moldam os craques diante do espelho.

Em 2017, quando a Fifa anunciou que o Mundial de 2026 seria inflado para 48 seleções, defendi a mudança nesta coluna. Fui fuzilada pelos puristas. Disseram que eu era "inimiga do futebol-arte", que o nível técnico despencaria e o torneio viraria uma várzea global. Minha resposta na época, que sustento hoje com a Copa rolando, foi simples: posso não saber lhufas de esquema tático, mas entendo tudo de festa.

O torneio com 48 times não estragou o brinquedo; expandiu a brincadeira. E, para calar os céticos, a bola resolveu punir o preconceito entregando partidas plasticamente impecáveis, reviravoltas desenhadas com maestria técnica e momentos de beleza que nos devolvem a magia do esporte. O purismo elitista que me desculpe, mas o que sustenta a Copa como o maior evento do planeta é o choque cultural longe das pranchetas.

Ali, os ingleses cantam "Wonderwall", do Oasis, em uníssono após o apito final, deixando os jogadores no gramado visivelmente emocionados com aquele calor de casa. Noruegueses "remam" nas arquibancadas em alusão ao passado viking, enquanto coreanos e mexicanos dançam juntos na rua, entregues aos encontros que só esporte e música proporcionam. Na saída, o clássico: japoneses dando sua habitual aula de civilidade ao limpar as arquibancadas.

Essa energia me transporta para 2018, quando caminhei por uma Moscou colorida e esbarrei na torcida da Tunísia. Eles haviam tomado conta do asfalto com uma alegria contagiante. Perguntei a um deles qual era a expectativa para o campeonato. A resposta veio com um sorriso largo: nenhuma de ganhar; estamos aqui para conhecer pessoas, para cantar, para fazer parte do mundo. Ali estava a essência que nenhuma federação consegue mercantilizar.

A expansão do torneio abre frestas para a gente saber mais do mundo e das pessoas reais. É por causa desse palco gigante que conhecemos histórias de enorme potência, como a carta de Yan Diomandé, atacante da Costa do Marfim, para a irmã que morreu aos 15 anos —a única que acreditou no seu sonho quando o cenário era de miséria e falta de perspectiva.

A Copa coloca a humanidade na mesma página, superando as Olimpíadas no engajamento. No meio de uma rotina embrutecida, onde operamos em modo de sobrevivência, o torneio faz aflorar a empatia que o cotidiano nos rouba. Ele nos ajuda a lembrar que o outro, por mais distante que esteja sua geografia, sente exatamente igual a nós. Diante disso, a máxima adaptada de Dorival Caymmi é precisa: quem não gosta da Copa do Mundo, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou está com o coração muito embrutecido.

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