Luís 15 teve uma disenteria brava em agosto de 1744. Ficou tão mal que quiseram dar-lhe a extrema-unção. A Igreja não permitiu porque o rei morava com a amante, a duquesa de Châteauroux. Para pasmo do povo, o bem-amado dispensou a linda concubina e recebeu a comunhão. Jurou fazer uma igreja para santa Genoveva se sobrevivesse. Leia mais (06/19/2026 - 18h00)

Jornalista, é autor de "Notícias do Planalto"

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19.jun.2026 às 18h00

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Luís 15 teve uma disenteria brava em agosto de 1744. Ficou tão mal que quiseram dar-lhe a extrema-unção. A Igreja não permitiu porque o rei morava com a amante, a duquesa de Châteauroux. Para pasmo do povo, o bem-amado dispensou a linda concubina e recebeu a comunhão. Jurou fazer uma igreja para santa Genoveva se sobrevivesse.

Como os médicos não soubessem o que ele tinha, a corte convocou à sorrelfa um clínico judeu, Isaias Ulmann, que debelou a então desconhecida febre tifoide. Luís 15 se salvou, mas, devido ao antissemitismo, a cura foi atribuída à padroeira de Paris e não ao doutor alsaciano.

Não havia orçamento para pôr a igreja em pé e o rei apelou para o estratagema clássico dos governos com caixa esquálida: promoveu uma imensa jogatina, a loteria real. Mesmo com as bets, a santa ganhou, mas não levou, pois a igreja ficou pronta só na revolução, em 1789, e foi estatizada. Tornou-se o Panthéon, o mausoléu dos pais da pátria.

Na próxima terça-feira, 23 de junho, o historiador Marc Bloch entrará no templo laico do Quartier Latin. Até que enfim. Fuzilado pelos nazistas e colaboracionistas, ele aguardou 82 anos para ser reconhecido como um francês de truz.

O primeiro entronado na quase-igreja foi Mirabeau, jacobino de raiz. Meses depois de morrer, vieram a público suas cartas rastejantes a Luís 16, de quem queria ser ministro numa monarquia constitucional. Carimbado como traidor da revolução, arrancaram-no da tumba e jogaram numa vala comum.

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O mesmo se deu com Marat, o amigo do povo, embora em sentido contrário. Um lacrimoso cortejo percorreu Paris dias depois de ele ser assassinado e o depositou no Panthéon. Não ficou cinco meses. A direita deu um golpe, arrancou-o aos gritos e o enterrou num cemitério vizinho.

A alternância no poder de progressistas e reacionários fez com que seis vezes tirassem e botassem uma cruz no topo do edifício neoclássico. Há hoje um acordo: a cruz encima a cúpula, mas o Panthéon é secular.

Marc Bloch chega lá por vias menos abruptas. Fundou com Lucien Febvre a revista Annales, que incorporou a economia à historiografia e a libertou dos guetos patrióticos. Escreveu "Os Reis Taumaturgos", pesquisa inovadora sobre o poder de cura dos monarcas medievais que inaugurou o estudo das mentalidades.

O livro impulsionou a obra do italiano Carlo Ginzburg, morto na última quarta-feira, ponta de lança da disciplina. A par do trabalho mental, foi soldado na Primeira Guerra, ganhando quatro condecorações por bravura. Além das medalhas, voltou das trincheiras com um ensaio pioneiro sobre fake news, "Reflexões de um Historiador sobre as Notícias Falsas da Guerra".