Wade Wilson, apelidado de "Deadpool Killer", assassinou duas mulheres no mesmo dia - Divulgação/Netflix Existe algo particularmente perturbador em documentários sobre serial killers. Eles costumam parecer distantes. Acontecem em outra cidade, em outro contexto, com pessoas que jamais cruzaram nosso caminho. “Os Piores Ex” provoca uma sensação diferente. O desconforto nasce justamente da proximidade.

A segunda temporada da série documental da Netflix retorna com quatro novos casos reais e reforça aquilo que já fazia da primeira um material difícil de esquecer: o perigo não aparece em becos escuros ou em figuras misteriosas. Ele surge dentro de relacionamentos que, em algum momento, pareciam normais.

O formato continua simples e eficiente. Depoimentos, imagens de arquivo, gravações policiais e reconstituições se unem para reconstruir histórias que, em muitos momentos, parecem inacreditáveis e assustadoras. O foco permanece nas vítimas, nas sobreviventes e nas marcas que carregam até hoje.

O episódio em destaque da temporada gira em torno de Wade Wilson, apelidado pela imprensa americana de "Deadpool Killer". O caso acompanha a trajetória de um homem que assassinou duas mulheres no mesmo dia e acumulava um histórico de abusos contra parceiras anteriores. 

É uma história brutal, mas o documentário faz um bom desenvolvimento do caso ao mostrar os sinais de violência que já existiam muito antes dos crimes ganharem repercussão nacional.

90 Day Fiancé

O segundo episódio aborda Geoffrey Paschel, conhecido por sua participação no reality “90 Day Fiancé”. Aqui, a série investiga um histórico de agressões e manipulações que contrastam diretamente com a imagem pública construída pela televisão. É um capítulo que fala muito sobre como o carisma pode funcionar como máscara.

A terceira história talvez seja a mais angustiante emocionalmente. Katie se envolve com Joyce, uma mulher aparentemente encantadora, mas que aos poucos revela comportamentos possessivos e violentos. 

Quando Katie descobre que uma ex-companheira de Joyce desapareceu em circunstâncias suspeitas, a sensação de perigo cresce junto com a paranoia. O episódio constrói tensão de forma quase sufocante.

Relação abusiva

Já o quarto caso acompanha Karen e sua tentativa de romper um relacionamento abusivo. Após conseguir uma medida protetiva contra Scott, ela acredita estar finalmente segura. O que acontece depois é uma sequência aterrorizante de perseguição, sequestro e sobrevivência que parece saída de um thriller de Hollywood, mas aconteceu de verdade.

Se a primeira temporada já era pesada, a segunda consegue ser ainda mais tensa e impressionante em alguns momentos. Não necessariamente pelos crimes em si, mas porque dedica mais tempo às consequências. 

O trauma não termina quando o agressor é preso. A série faz questão de mostrar o que acontece depois das manchetes, quando as câmeras vão embora e as vítimas precisam reconstruir suas vidas.

Tecnicamente, também há uma evolução perceptível. As reconstituições são mais elaboradas, a montagem trabalha melhor a tensão e a narrativa encontra um equilíbrio interessante entre investigação criminal e drama humano. Em alguns episódios, a sensação é menos de estar assistindo a um documentário e mais de acompanhar uma narrativa de suspense cuidadosamente construída.

“Os Piores Ex” continua sendo um dos documentários de true crime mais interessantes da Netflix justamente porque dispensa monstros caricatos. Seus vilões são pessoas comuns, namorados, maridos. Gente que um dia foi amada por alguém. E por isso que assuste tanto.

*Fernando Martins é jornalista e grande entusiasta de produções televisivas. Criador do Uma Série de Coisas, escreve semanalmente neste espaço. Instagram: @umaseriedecoisas.

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