Solução definitiva ainda é horizonte distante, que exigirá trabalho árduo. Na hipótese mais otimista, pode vir a redesenhar o jogo de forças no Oriente Médio

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EUA e Irã anunciam acordo para cessar hostilidades, trazendo alívio e reabrindo o Estreito de Ormuz. No entanto, é um memorando de intenções, com questões cruciais como o programa nuclear iraniano e a posição de Israel ainda sem solução definitiva. A paz duradoura no Oriente Médio segue incerta e distante.

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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.

Foram dias de tensão em patamar elevado mesmo para os explosivos padrões do Oriente Médio. E as estocadas não paravam na troca de superlativas ameaças nas redes entre Estados Unidos e Irã — elas se estendiam também ao campo de batalha, onde as partes envolvidas no conflito, que desde 28 de fevereiro faz tremer a região, não cessavam as hostilidades. Em um mês, Donald Trump repetiu quarenta vezes que o conflito estava quase acabando, e nada. Aí veio um twist. Após uma rodada de intensas costuras diplomáticas, um acordo foi enfim alcançado e anunciado pelo presidente americano no domingo 14, dia de seu aniversário de 80 anos. Para não dar o pacto de presente a Trump, Teerã só confirmou o acerto no dia seguinte.

A assinatura formal, aguardada para sexta-feira 19 na Suíça, foi de súbito antecipada em dois dias. Em uma recepção oferecida pelo presidente francês Emmanuel Macron no belo Palácio de Versalhes, Trump decidiu cravar seu nome no tão aguardado documento, tal como fez o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian. O acordo, na prática um memorando de intenções, já que pendências vitais ficaram para ser resolvidas em sessenta dias, é um passo de muitos até a tão almejada paz duradoura. Mesmo assim, trouxe alívio geral ao virar a página de uma guerra que transbordou pelo Oriente Médio e provocou estrondos na economia global. Agora, o mundo segue atento ao próximo capítulo, por ora cercado de incertezas. “A única coisa garantida é que será duro o caminho para a paz”, avalia João Nyegray, especialista em relações internacionais.

Também classificado (não sem certa ironia) como um “acordo para fazer um acordo”, o acerto por ora prevê um ponto final nas hostilidades e a reabertura do Estreito de Ormuz, por onde transita 20% do petróleo mundial. De saída, portanto, o que se desenha é a exata paisagem pré-guerra: os navios já trafegam livres de ataques, segundo promessa da empoderada Guarda Revolucionária, e começa a ser suspenso o bloqueio naval americano que sufocou as exportações petrolíferas do Irã, o motor da economia local, agora liberadas. A notícia, claro, tranquilizou os mercados, e o preço do barril caiu mais de 5%, negociado abaixo dos 80 dólares pela primeira vez em três meses. A maré baixou, mas as águas ainda seguem revoltas, devido a declarações contraditórias. Trump garantiu que tudo será como antes — ou seja, nada de pedágio para cruzar aquela estratégica passagem. “Navios do mundo: liguem seus motores! Deixem o petróleo fluir”, bradou. Faltou combinar com os iranianos, que se comprometeram apenas em não cobrar a viagem dos cargueiros nos próximos dois meses, mas deixaram no ar o que farão depois.

Após arrastada contenda, os aiatolás não esconderam o quão satisfeitos estavam de terem mantido seu regime de pé, ainda mais radical e menos contestado, e de terem empurrado para adiante detalhes sobre o destino de seu programa nuclear. Outro ponto que muito agradou aos poderosos de turbante foi o tópico do memorando que trata do encerramento das sanções americanas sobre o Irã. Uma vez concretizado, representará a liberação de bilhões de dólares congelados em bancos no exterior, um gás e tanto à economia em frangalhos. Sobre a data, nada se disse. Também consta no acordo a criação de um fundo privado na casa de 300 bilhões de dólares para ajudar na reconstrução do devastado país — praticamente o tamanho do atual PIB iraniano. O vice-presidente americano JD Vance, na linha de frente das conversas, sugeriu que um naco do valor seja usado para cobrir o prejuízo que as bombas causaram aos petroestados da região. Tudo assentado sobre uma delicada linha fina. “O Irã terá um futuro melhor se cumprir suas obrigações. Veremos”, soltou Vance em entrevista.

De todos os espinhosos temas à mesa, o mais emergencial para a Casa Branca é o destino do estoque iraniano de urânio, estimado em 440 quilos, que poderia ser usado para fabricar até dez bombas atômicas, caso siga na rota do enriquecimento. Por meses, Trump exigiu que o Irã abrisse mão do material, até conseguir incluir no acordo a promessa de que o diluirão — in loco ou em outro país, sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. O órgão da ONU, aliás, participará das discussões por vir, que vão abordar um ponto que, para Trump, é questão de honra: o americano alardeia não aceitar nada menos do que uma paralisação do programa nuclear do oponente, por período a combinar. A depender dos termos finais, isso permitiria ao mercurial mandatário estufar o peito para dizer que fez mais do que o outrora dono da faixa presidencial, Barack Obama, cujo acordo com os aiatolás Trump abandonou e agora pena para obter um melhor. “Para paralisar o programa, o Irã seguramente exigirá mais compensações e deve arrastar as tratativas ao máximo para pressionar Trump”, afirma Daniel Shapiro, ex-secretário-assistente de Defesa do governo Joe Biden.

E a complexidade do cenário, que por certo não é para amadores, não para por aí: ainda é preciso adicionar ao imbróglio o fator Líbano, que vem sendo castigado por uma guerra à parte, de interesse de Israel, com saldo superior a 3 700 mortos. O memorando entre Estados Unidos e Irã abrange o fim dos combates com o Hezbollah, a milícia xiita sustentada pelos iranianos da qual o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu quer se livrar, objetivo sabidamente inexequível. O que não fica de todo claro no texto é se Israel teria de deixar a porção que já ocupa ao sul do país e de onde por nada pretende sair. Para não deixar dúvidas, não deu nem 24 horas do acordo para Netanyahu avisar que manterá as tropas ali, como também na Síria e na ainda conflagrada Gaza.

Para o premiê israelense, que apostava conseguir com a guerra um trunfo eleitoral, já de olho no pleito de novembro (que, segundo as pesquisas, hoje ele perderia), os termos do memorando são um balde de água gélida. Ele não inclui limite ao arsenal de mísseis balísticos de seu inimigo-mor na região, nem menção à extinção do financiamento pelo Irã de grupos como o Hamas e o próprio Hezbollah. “Bibi foi escanteado por Trump e pode ser pressionado a moderar suas ações, mas vai usar qualquer brecha para seguir com seu plano, o que pode prejudicar as negociações”, alerta Farah Jan, professora de relações internacionais da Universidade da Pensilvânia. Na terça-feira 16, o Irã deu pista de quão deletéria para a paz pode ser a posição de Israel: se as agressões continuarem, haverá uma “dura resposta”, disseram as autoridades do país.

Como se vê, solução definitiva ainda é horizonte distante, que exigirá trabalho árduo. Na hipótese mais otimista, isso pode vir a redesenhar o jogo de forças no Oriente Médio. “Um acordo para valer abre a chance de uma reaproximação entre Estados Unidos e Irã”, analisa Amin Saikal, autor de Ascensão e Queda do Xá: o Irã da Autocracia ao Governo Religioso. Em busca de estabilidade, uma vez que também foram tragadas para o conflito, as monarquias do Golfo, avaliam observadores da região, também poderão firmar acordos com Teerã, inclusive na área da segurança.

Foi com ares vitoriosos que Trump adentrou o palco do G7, o evento das nações mais ricas, na terça-feira 16, onde até Lula, com quem ele trocou farpas, estava presente como convidado. Evidentemente, o americano não lançou holofotes sobre os incômodos termos que, no conjunto, frustram o ambicioso plano que o levou a uma guerra que custou 30 bilhões de dólares e atropelou sua popularidade, deixando-o na corda bamba nas eleições de meio de mandato, para a Câmara e o Senado, que se avizinham. Se em sessenta dias não se bater o martelo sobre os decisivos tópicos ainda em aberto, a negociação pode ser estendida. Para todas as partes, melhor nem pensar nisso.

Publicado em VEJA de 19 de junho de 2026, edição nº 3000