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BC chega à reunião de junho dividido entre novo corte na Selic ou interromper o ciclo diante expectativas de inflação.

O Comitê de Política Monetária do Banco Central chega à reunião de 17 de junho, quarta-feira, em um ponto delicado. A Selic ainda está alta, em 14,5% ao ano, mas o ambiente econômico ficou menos confortável para novos cortes. Depois de reduzir os juros em 0,25 ponto percentual na última reunião, o Copom indicou cautela. A mensagem foi clara: o Banco Central não quer se comprometer com uma trajetória automática de queda da taxa básica. Em outras palavras, a próxima decisão dependerá mais dos dados recentes do que do desejo político ou do alívio esperado por consumidores, empresas e governo.

A dúvida do mercado agora é simples, mas decisiva: o Copom ainda terá segurança para cortar a Selic para 14,25% ou vai preferir pausar o ciclo para ganhar tempo?

A resposta passa por três fatores principais: inflação esperada em alta, tensões globais que afetam petróleo e alimentos, e o risco fiscal brasileiro, que voltou a pesar nas projeções dos economistas.

A Selic é a taxa básica de juros da economia. Ela influencia o custo do crédito, os juros do cartão, financiamentos, empréstimos, rendimento da renda fixa e até o apetite dos investidores pela Bolsa.

Quando a inflação preocupa, o Banco Central mantém os juros altos para esfriar a economia. O crédito fica mais caro, o consumo perde força e, com menor pressão de demanda, os preços tendem a subir menos. O problema é que esse remédio também tem efeitos colaterais: encarece a dívida pública, dificulta investimentos, reduz o fôlego das empresas e pesa no orçamento das famílias.

Por isso, cada reunião do Copom virou uma espécie de teste de equilíbrio. Cortar juros cedo demais pode reacender a inflação. Demorar demais pode travar a economia.

Neste momento, o Banco Central parece mais preocupado com o primeiro risco.

O dado que mais pesa contra uma queda mais forte da Selic é a expectativa de inflação. O Boletim Focus mais recente mostrou que os economistas consultados pelo Banco Central elevaram a projeção para o IPCA de 2026 para 5,11%. O número está acima do teto da meta, que é de 4,5%.

Isso é importante porque o Copom não olha apenas para a inflação de hoje. A política monetária funciona com atraso. Uma decisão tomada agora pode afetar preços, crédito e atividade econômica ao longo dos próximos meses. Por isso, o BC observa o que o mercado espera para o futuro.

Quando as expectativas ficam “desancoradas”, ou seja, afastadas da meta oficial, o trabalho do Banco Central fica mais caro. Para convencer empresas, consumidores e investidores de que a inflação voltará ao alvo, a autoridade monetária tende a manter juros restritivos por mais tempo.

É exatamente esse o ponto que enfraquece a tese de cortes acelerados.

O cenário externo também piorou. As tensões geopolíticas no Oriente Médio aumentaram a volatilidade nos preços de commodities, especialmente petróleo. Quando o petróleo sobe, o efeito pode chegar aos combustíveis, ao frete, aos alimentos e a diversos produtos industrializados.

A ata mais recente do Copom citou a necessidade de serenidade e cautela diante das incertezas globais. O Banco Central também chamou atenção para possíveis impactos de segunda ordem, aqueles que não aparecem apenas no preço inicial do combustível, mas se espalham por cadeias inteiras de produção e distribuição.

Esse tipo de choque é especialmente difícil para a política monetária. O Banco Central não controla guerra, petróleo nem clima. Mas precisa reagir se esses fatores contaminarem as expectativas de inflação.

É por isso que a reunião de junho não será apenas sobre a inflação passada. Será sobre o risco de a inflação futura voltar a escapar.

Além do cenário externo, há o problema doméstico: as contas públicas. O mercado tem demonstrado preocupação com a trajetória fiscal, especialmente em um ano de aumento de gastos, subsídios e pressões por medidas de estímulo.

Quando investidores desconfiam da capacidade do governo de controlar despesas, exigem juros maiores para financiar a dívida pública. Isso afeta a curva de juros, pressiona o câmbio e pode dificultar o trabalho do Banco Central.

Na prática, política fiscal expansionista e política monetária restritiva passam a caminhar em direções opostas. O governo estimula a economia; o Banco Central tenta conter a inflação. O resultado é uma Selic mais alta por mais tempo.

Essa é uma das razões pelas quais parte dos analistas vê um novo corte em junho como arriscado. Para esse grupo, baixar juros agora poderia transmitir a mensagem de que o BC está tolerando inflação acima da meta em troca de algum alívio econômico no curto prazo.